As faces da melancolia


Desde Freud, a “dor de existir” vem sendo observada e, hoje, seu conceito parece confundir-se com o de depressão. Como a Psicanálise e a Psiquiatria biológica repercutem este “distúrbio psíquico permanente”?

Por Cláudio Vital de Lima Ferreira

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Em janeiro de 1895, cinco anos antes de publicar seu clássico A interpretação dos sonhos, Freud, em uma carta enviada ao médico Fliess, manifesta preocupação com o tema da melancolia e busca levantar algumas hipóteses sobre sua etiologia. Desde então e a partir de suas observações clínicas e estudos, expressa sua convicção de que a melancolia é conseqüência de um grande desejo de “recuperar algo que foi perdido”. Faz também uma correlação entre esse distúrbio com a anorexia nervosa, a qual chama de neurose nutricional, com a perda do apetite sexual, ou perda da libido, para concluir que “a melancolia consiste em luto por perda da libido”. Ainda que de passagem tenha se referido ao tema, como em outra carta ao seu amigo Fliess em 1897, somente mais de vinte anos depois, em 1917, Freud volta ao tema em um belíssimo artigo intitulado Luto e Melancolia. Na obra de Freud pode-se perceber que ele, em seus estudos, entendia a melancolia não como um distúrbio ou transtorno de humor, mas, sim, um luto contra a perda da libido, portanto um luto especial, como se existissem dois lutos: um pelo afeto normal e um luto pela perda da libido. Freud via como sintomas característicos da melancolia uma grande perda de interesse pelo mundo, perda da capacidade de amar, surgimento de inibição da produtividade, auto-acusação, auto-denegrimento, expectativa delirante de castigo, insônia, anorexia, capacidade de reverter-se em mania e perda objetal retirada da consciência, todas essas características derivadas da sensação de perda (Ferrari, 2006). No entanto, parece que também para Freud o conceito de melancolia não era muito claro, uma vez que utiliza ao longo de sua obra vários termos tais como melancolia, depressão e depressão melancólica, quase sempre como sinônimos, não estabelecendo uma distinção clara entre eles.

Melancolia que constrói
“Enquanto lá fora rugem os trovões,
Aqui a música me consola.
E o zumbir dos ventos tempestuosos,
Me mostram a melancolia que inspira.
Enquanto ao longe clamastes uma ausência,
A presença fascina em sonhos reais,
E me põe num profundo calar.
A dor que consome na lentidão,
No silêncio vem alimentar a alma,
A consumir-se num sofrimento.
E construir nela o seu valor.
E uma alma alimentada e construída,
Sabe amar e suportar as dores”

Freud justifica a correlação entre luto e melancolia em função da semelhança do quadro geral das duas condições. Afirma que o luto “é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido…”. Considera, no entanto, que “em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto”, suspeitando que elas “possuem uma disposição patológica”. Assim faz uma distinção importante entre luto e melancolia ao considerar apenas a segunda como patológica. Descreve-a como “um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos e de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição”. Freud, porém, considera que apenas a perturbação da auto-estima não está presente no luto. Descreve, então, o luto a partir da constatação pelo indivíduo de que o teste da realidade dá-se ao ser revelado que o objeto amado não existe mais, exigindo que a libido seja desinvestida daquele objeto, provocando uma reação de oposição, pois todos se opõem a aceitar a perda de um objeto no qual energia libidinal (catexia) tenha sido investida. Quanto mais dessa energia tiver sido investida, maior será a oposição a aceitar a perda, uma vez que esse objeto passa a ser amado. Interessante que Freud não menciona o luto pelo objeto amado que ainda existe, mas que não corresponde mais ao amor. Parece evidente que nesse caso, o luto torna-se muito mais difícil e penoso, uma vez que o objeto de amor ainda existe, apenas se desinteressou pelo objeto amado ou redirecionou sua catexia libidinal a outro objeto. Nesse caso, a dificuldade resume-se exatamente no fato do objeto ainda existir e com isso evocar sempre a possibilidade de mais cedo ou mais tarde poder voltar e dirigir sua libido novamente para o antigo amor. Essa situação costuma intensificar e prolongar a dor.

O superego ajuda a manter a melancolia, dele depende a intensidade dos sintomas de desamparo e dor psíquica

Toda perda psicológica é precedida por um investimento afetivo (catexis). Quando dizemos que estamos apaixonados por alguém, em verdade estamos dizendo que uma parte de nossa energia afetiva (catexis) foi deslocada para aquela pessoa. Quanto mais de nossa energia afetiva depositarmos no outro, maior a sensação de paixão e amor temos por ela. Em verdade é um amor legítimo, mas “falso” uma vez que amamos a nós mesmos através do outro, pela energia depositada nele. O processo de luto inicia-se quando, por algum motivo, quer por morte física, quer por abandono, a outra pessoa não pode ou não quer mais nos disponibilizar seu amor e ou atenção. Assim o luto consiste em retirar, ou seja, desinvestir a energia depositada no outro para torná-la disponível para utilizarmos em outra pessoa, objeto ou atividade. Enquanto isso não é feito, estamos pobres de energia afetiva, pois uma parte dela continua presa no outro que morreu ou não nos quer mais. O luto é necessário e saudável, uma vez que irá nos permitir liberar a energia que no outro estava presa. Sempre que conseguimos trazer de volta essa energia, podemos dizer que o luto deu-se satisfatoriamente. O outro deixa de ter a importância que até então tinha e nos sentimos livres para investir em outra pessoa. Algumas vezes, por uma série de razões, o processo de luto não se dá de forma adequada. Em outras palavras, o sujeito não consegue resgatar a catexia depositada no objeto perdido ou consegue apenas um resgate parcial. Isso fatalmente deixará essa pessoa ligada pelo resto da vida a alguém que ou já morreu ou não a quer mais, tendo assim uma vida afetiva pobre e um teor de sofrimento enorme sempre na esperança de que um milagre irá acontecer e o objeto amado vai voltar. Essas pessoas, por não conseguirem fazer adequadamente esse processo de luto, tornam-se melancólicas. Tive uma paciente que tinha na época do tratamento aproximadamente 70 anos. Era viúva há 30 anos e desde o enterro do marido, toda quinta-feira, até a data do tratamento, ia ao cemitério levar flores; tinha de ser naquele dia uma vez que o enterro tinha caído em uma quinta-feira. Nunca mais teve alguém e sua vida afetiva era extremamente pobre, pois não havia conseguido resgatar a catexia investida no marido que havia morrido há tanto tempo (Ferreira, 1994).

As melancolias ao longo do tempo
Por muito tempo, acreditou-se que melancólicos teriam vantagens na produção artística e literária

Historicamente, no conceito de melancolia tem-se embutido muitas características da natureza humana. As características mentais do ser humano, suas angústias e dor psíquica, muitas vezes são descritas como patológicas e outras como normais, ainda que ninguém consiga encontrar uma linha divisória. Na verdade, é todo um processo no qual a intensidade e duração são tomadas como marco divisório. Em relação à melancolia, o estado de confusão parece maior ainda. Por muito tempo ela foi vista pelo lado romântico, em que os melancólicos teriam algumas vantagens na produção artística e literária em função de sua “dor de existir”. Muitos autores usam o termo melancolia como sinônimo de depressão, ou depressão melancólica, depressão neurótica, depressão narcísica, depressão psicótica, psicose melancólica, melancolia neurótica, melancolia psicótica, histeria melancólica, depressão histérica, depressão endógena (Peres, 2003). Na verdade, todos esses termos apenas mostram de maneira inequívoca o tamanho do desconhecimento, confusão e desacordo entre os estudiosos sobre o que é de fato a melancolia. No entanto, parece que a tendência a se abandonar o termo melancolia e utilizar depressão foi fortemente favorecida por Adolf Meyer (Moreira, 2001).

O melancólico perde-se em todos os conflitos inerentes à espécie humana e tende ao suicídio

Segundo Pellion (2003), a diversidade de sintomas descritos dentro da melancolia ou das melancolias através dos séculos, parece um pout-pourri de todas as discórdias às quais está submetida a condição humana. Primeiro: alterações de conduta nas quais se bifurcariam em melancolia de “virtualidades suicidas” e o risco de “homicídio altruísta”. Segundo: modificações estéticas, das quais dão um testemunho eloqüente os trabalhos da escola fenomenológica sobre o tempo e o espaço melancólicos. Terceiro: alterações morais, cujo valor causal se manifestará de distintas maneiras, mas costuma trilhar um caminho que leva à autodesvalorização e também à auto-acusação ao “esquema depressivo”. Quarto: alterações de percepção da realidade com a idéia de incurabilidade ao delírio de ruína e logo a Síndrome de Cotard. E, por último, idéias constantes sobre mistérios fronteiriços entre o corpo e a alma do humor doloroso. Conclui o autor que o universo da melancolia pode conduzir, por um lado, a perder-se nas areias movediças de estados melancólicos que parecem tomar elementos de todas as possibilidades de conflitos inerentes à espécie humana. A Síndrome de Cotard refere-se a uma espécie de delírio em que a pessoa nega os próprios órgãos, uma espécie de crença delirante de estar morto ou de que seus órgãos não existam ou estejam paralisados ou mortos. Esse nome é uma homenagem ao psiquiatra Francês que primeiramente publicou um estudo sobre o tema. O autor termina citando Lacan “(…) O elemento essencial do progresso analítico é a reconstituição completa da história do sujeito. A dimensão própria da análise é a reintegração, por parte do sujeito, de sua história até seus últimos limites sensíveis, vale dizer, até uma dimensão que supera os limites individuais. A história não é o passado. A história é o passado na medida em que se historiza no presente. O que conta é o que o sujeito reconstrói de si. Ao final, se trata menos de recordar do que de reescrever a história”.

Apenas interesses escusos e nada éticos de grandes laboratórios podem explicar a busca da solução para as angústias humanas numa pílula dourada

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Elaborando conflitos depressivos: após o luto pelo seio da mãe, o bebê a percebe dando-lhe amor e carinho; prova de que ela não foi lesada por suas fantasias agressivas

Melanie Klein também dá sua importante contribuição na compreensão da culpa, angústia e luto. Descreve duas posições amplamente conhecidas no meio psicanalítico que são a posição esquizoparanóide e a posição depressiva. A segunda posição na verdade é a luta do bebê em elaborar as seqüelas da primeira posição. Numa luta pela sobrevivência psíquica, nos primeiros meses o bebê desenvolve vários mecanismos protetores, nos quais, em fantasia, defende-se, ataca e destrói. Evidente que quanto maior for sua agressividade nessa fase (a esquizoparanóide), maiores serão as dificuldades na elaboração da posição depressiva. Nessa última posição, de posse da percepção da mãe e dos objetos como um todo e não mais fracionados, dá-se conta que o objeto destruído é o mesmo objeto amado. Daí o sentimento de culpa, a necessidade de reparação e o luto. O luto é pelo seio da mãe e tudo o que ele representa, ou seja, amor, bondade e segurança. “A criança sente que perdeu isso tudo e que esta perda é o resultado de sua incontrolável voracidade e de suas próprias fantasias e impulsos destrutivos contra o seio da mãe”. É a presença da mãe, seu amor, seu carinho e proteção que irão permitir o “teste da realidade” no qual o bebê percebe sua mãe com saúde e dando-lhe amor e carinho. Isso prova que ela não foi lesada por suas fantasias e a elaboração dos conflitos e angústias da posição depressiva é facilitada. Do contrário, uma mãe ausente afetiva e fisicamente, ou pior ainda uma mãe muito severa, fria e castradora, confirmará ao bebê que o castigo que está recebendo é uma forma de retaliação pelo mal feito em fantasia. Isso incrementará a culpa e dificultará a elaboração da posição depressiva podendo facilitar a postura melancólica diante da crença na impossibilidade de reparação do objeto danificado.

Talvez um dos mais aprofundados e bonitos estudos sobre o tema tenha sido feito por Robert Burton que viveu entre o século XVI e XVII. Divide sua obra em três partes. Na primeira define a melancolia, suas causas e seus sintomas. Na segunda, analisa os tratamentos para curá-la na época. E na terceira dá inúmeros exemplos de melancolia amorosa e religiosa. São dele as seguintes palavras: “Concede-me uma certa margem de tempo, e eu porei ante vossos olhos, sumariamente, um oceano prodigioso, vasto e infinito de insensatez e loucura incríveis; um mar cheio de rochas e falésias, de bancos de areia e golfos, de estreitos e marés contrárias, cheio de monstros terríveis, formas selvagens, ondas que rugem, tempestades e sereias sossegadoras: exporei desgraças indescritíveis, comédias e tragédias, acontecimentos tão absurdos e ridículos, tão terríveis e lamentáveis, que não sei se merecem mais compaixão ou riso, que não sei se alguém irá acreditar. Não obstante, vemos que tudo isso segue ocorrendo todo dia em nosso tempo, e contamos assim com novos exemplos e casos recentes de insensatez e miséria semelhantes, que se apresentam dentro e fora de nossas casas, entre nós e dentro de nós”.

A generalização da depressão ajudou a embaralhar a coerência conceitual que trazia a melancolia Freudiana
Penitência: por trás dos sintomas dos melancólicos, pode haver um prazer masoquista que proporciona alívio das culpas e angústias inconscientes

MELANCOLIA E SUPEREGO
Impossível se referir à melancolia ignorando o Superego e sua formação. Primeiro podemos observar em toda obra de Freud que o conceito de Superego assenta-se na relação do bebê com as figuras parentais, iniciandose com a mãe e depois com o pai. Ninguém consegue escapar da angústia e das culpas daí originadas. “Para Freud, até os melhores sujeitos sempre comparecem como acusados, culpados que não tem perdão, diante do Superego. Por mais bondosos que sejam, este os acusa de não valerem nada; por mais trabalhadores que sejam, este os acusa de preguiça e exige um esforço a mais” (Ferrari, 2006). Freud aqui se referia a qualquer pessoa e não especificamente ao melancólico. Nesse, é como se os sintomas fossem mais marcantes tanto na dimensão tempo quando profundidade. Entendemos que por detrás de todos os sintomas quase permanentes que existem nos melancólicos haja uma espécie de prazer masoquista, diante de um processo de expiação que jamais se extingue, mas que uma vez vivido na dor, proporciona alívio das culpas e angústias inconscientes. Assim, parece que a intensidade dos sintomas faz a diferença entre uma pessoa considerada melancólica e uma aceita como normal. O Superego tem um papel preponderante na manutenção da melancolia e dele depende a intensidade dos sintomas de desamparo e dor psíquica. Historicamente, o termo melancólico assume conotações muito distintas tais como um dom, uma vacilação de crença, uma disposição de caráter ou um acidente patológico. Assim, parece que, antes de ser um diagnóstico, melancólico é um termo que descreve aspectos extremamente variados da experiência humana (Pellion, 2003).

Estudo americano revela que uma em cada 33 crianças sofre de depressão

Quando falamos em melancolia, no fundo estamos nos referindo à “dor de existir”, ainda que vivenciada em intensidades diferentes por cada um. Faz parte da natureza humana essa dor. Talvez ela seja a maior companheira do ser humano durante toda sua vida. A dor nos mostra a cada momento, desde o nascimento até a morte, os limites de nossa natureza, podando parte de nosso narcisismo. Não somente a dor física propiciada por doenças e fragilidades orgânicas, mas, talvez e principalmente, a dor psíquica na qual uma espécie de inferno psíquico transforma toda a vida do sujeito em um grande sofrimento e desastre. Difícil definir a linha de separação entre a melancolia vista como um distúrbio e a dor de existir. Em verdade vivemos todos uma espécie de “distúrbio psíquico permanente” que diariamente mostra sua cara quando estamos desanimados, tristes, sem perspectivas, angustiados, com sensação de desamparo e abandono; e o pior de tudo, sentindo-nos responsáveis por tudo. De acordo com Peres (2003), “estamos vivendo a democracia da tristeza em sua dimensão mais aguda. Não é mais uma forma de situar-se no mundo, porém uma característica do homem da atualidade. Globaliza-se um estado d’alma. A depressão é o mal do século. Tomemos o fato como acontecido: no singular ou no plural, melancolia ou melancolias, depressão ou depressões, vivemos uma época em que a tristeza e o desencanto tomam proporções de epidemia”. Nos Estados Unidos, uma em cada 33 crianças e um em cada oito adolescentes sofre de depressão, segundo a Associação Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência. Estudo feito pela Universidade de Washington mostra que de cinco mil crianças entre quatro e sete anos quase 7% delas tinham sintomas depressivos. É um aumento de 98% em dez anos. Entre as causas foram apontadas influência genética, a estrutura familiar e a diminuição da infância (Revista Época, 2008).

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A Psiquiatria biológica sonha com o dia em que um comprimido irá curar as dores da alma e os males do mundo

MELANCOLIA E PATOLOGIA
A melancolia, vista como uma dificuldade existencial que acrescentava alguns dons ao sujeito, aos poucos, foi cedendo espaço à idéia de patologia. Segundo Peres (2003), hoje temos dois caminhos de abordagem da melancolia: a Psicanálise e a Psiquiatria biológica. A primeira fala de um desamparo do sujeito, de uma subjetiva, complexa e não bem resolvida relação com a perda, da falta e do vazio estrutural do ser humano. Uma dor subjetiva, quase sempre sem causa aparente que acompanha o sujeito durante sua vida. Já a segunda considera a melancolia uma insuficiência biológica, um déficit neuro-hormonal, buscando a promessa de cura no isolamento de uma molécula. Na Psiquiatria, aos poucos, o conceito de melancolia passou a ser confundido com o de depressão. A generalização da depressão ajudou a embaralhar a coerência conceitual que trazia a melancolia freudiana. Além do mais, com a ajuda da quase inocuidade dos tratamentos médicos, e o aumento constante dos estados depressivos, a depressão fatalmente se juntou ao leque dos “estilos de vida” da modernidade. Com isso, até a palavra melancolia passou a ser ameaçada em sua sobrevivência. Segundo o DSM III-R, publicado em 1987, a palavra aparece somente como denominação de um conjunto de sinais que indicam uma doença do corpo e exigem um tratamento principalmente psicofarmacológico. Já o CID-10, cuja revisão ocorreu em 1992, convida os profissionais que ainda usam o termo melancolia a substituí-lo por “síndrome somática” (Pellion, 2003).

Não é de hoje que a Psiquiatria biológica tenta inutilmente ignorar a subjetividade da dor e da existência humana, buscando respostas dentro do contexto biológico e sonha com o dia – que nunca virá – em que um comprimido irá curar todos os males do mundo. Segundo Estevão (1997) apud Moreira 2001, “desde os anos 1950, nada de qualitativamente novo surgiu em matéria de tratamento da depressão. Os grandes investimentos e o modo de investigação utilizado em nossos dias, não conseguiram produzir resultados positivos para a clínica, nem cientificamente, nem praticamente”. Como uma espécie de “Monstro do lago Ness” na Escócia, que todos sabem não existir, mas diariamente muitos turistas vão até o local e usam binóculos em busca da miragem, profissionais embarcam no discurso dos laboratórios centralizando em algum medicamento a panacéia, como fizerem em relação ao Prozac. Apenas interesses escusos e nada éticos de grandes laboratórios podem explicar a busca da solução para as angústias humanas numa pílula dourada. É o interesse econômico pegando carona na fantasia onipotente, com falsas promessas e muitos lucros. Jamais se pode esquecer que a tristeza, a dor e a angústia fazem parte da natureza humana e o ato de existir nos expõe a essas sensações em muitos momentos em nossas vidas. Precisamos vivê-las. A dor tem sido condição para o desenvolvimento na natureza humana. Sem dor não há crescimento. O parto é com dor, o crescimento é com dor, o aprender é com dor, o independentizar-se é com dor e o morrer é com dor. Todo nosso processo de nascer, viver e morrer é perpassado pela dor e angústia. Somos herdeiros de uma perda irreparável. Desde a concepção nos defrontamos com perdas. Para iniciar nosso estado de seres vivos, perdemos a condição de inexistentes e todo o desenvolvimento e crescimento vai nos despindo e nos impondo perdas. Como um quebra-cabeça que está sendo desmontado e vamos remontando. Perdemos uma peça e precisamos colocar outra no lugar. Hoje, na vida adulta, podemos estar realizados nas relações afetivas e profissionais. Muita dor, luta e angústia existencial cimentou esse processo. O que não pode ser ignorado é que milhares de perdas antecederam as conquistas dessa etapa. Com todo ser humano é assim. Viver é um processo constante de perder e ganhar, ganhar e perder. Se é difícil ganhar, muito pior é perder. E fomos perdendo nossos pontos de referência que são nossos pais. Se o processo de internalização dessas figuras parentais não foi bem feito ou se os conflitos a eles relacionados não forem adequadamente elaborados, maior será a dor e a angustia de viver.

A tristeza, a dor e a angústia fazem parte da natureza humana e o fato de existirmos nos expõe a essas sensações

REFERÊNCIAS :
Blanc,V. e Martins, E. Melancolia precoce. Rio de janeiro. Revista Época. Capturado da internet http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR743686014,00.html, em 25/02/2008.
Burton, R. Anatomía de la melancolía. Madrid, Aliança Editorial, 2006.
Ferrari, I .F. Melancolia: de Freud a Lacan, a dor de existir. Latin-American Journal of fundamental psychopathology on line, VI, I, 105-115, 2006
Ferreira, C.V.L. Aids e vida um estudo clínico psicanalítico com pacientes HIV. Uberlândia – S Paulo: EDUFU e lemos Editorial, 1994.
Freud, S. [1894] Rascunho F. Ed. Standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud. Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
Freud, S. [1917] Luto e melancolia. Ed. Standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud. Vol. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
Klein, M. O luto e a sua relação com os estados maníacos-depressivos. In: Contribuições à psicanálise. São Paulo: Editora Mestre Ju, 1981.
Klein, M. Algumas conclusões teóricas sobre a vida emocional do bebê. IN: Klein, M. e col. Os progressos da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1978.
Moreira, A.C.G. A melancolia na obre de Freud: um Narciso sem [des]culpa. Latin-American Journal of fundamental psychopathology on line, IV, 4, 92-102, 2001.
Pellión, Frédérick. Melancolia y verdad. Buenos Aires, Manantial, 2003.
Peres, U.T. Depressão e melancolía. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2003.

Cláudio Vital de Lima Ferreira é psicólogo, com
mestrado em Psicologia clínica pela PUCCAMP,
doutorado em Saúde Mental pela UNICAMP. Pós-
Doutorado em Saúde Mental pela Universidade de
Barcelona – Espanha. Autor de vários livros, dentre
os quais: Aids e Exclusão Social. Atualmente é
professor-associado do Instituto de Psicologia da
Universidade Federal de Uberlândia – MG

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