A Psicose e sua "mãe"


PATOLOGIA

O conjunto corporal de uma criança se encontra submetido, desde o início de sua existência, a uma regularidade do conjunto corporal da mãe. Sua condição submetida não encontra amparo em outro corpo que não neste

Por José Costa, José Turna, Maria Oliveira e Vanessa Queiroz

José Raimundo Evangelista da Costa é doutorando em psicologia clínica, mestre em Bioética, pesquisador do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP e psicólogo da Casa de Saúde São João de Deus.

José Waldemar Thiesen Turna é mestre em psicologia clinica, coordenador técnico do Hospital Psiquiátrico Casa de Saúde São João de Deus e membro do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP

Maria Isabel de Oliveira é psicanalista e voluntária na Casa de Saúde São João de Deus

Vanessa Queiroz é psicanalista e voluntária na Casa de Saúde São João de Deus

A constituição de um sujeito desde a infância ordena fatores que entrelaçam o destino deste corpo ao desejo de uma mãe, bem como, o modo de como essa mãe poderá compor a partir do seu corpo as inten- ções que orientam suas pulsões, as circunscrições determinantes a permitir que este “segundo conjunto” se torne algo mais que um simples “acidente biológico” permitindo que a clivagem ofereça um enlace entre ego e inconsciente passível de reco- nhecimento póstumo.

Faz-se fundamental determinar os limites sobre a importância do conceito “função” para a psicanálise, pois ao utilizarmos para organizar a leitura de nossa clínica, optamos por deixar em segundo plano a corporificação encarnada do utilitário desta situação, ou seja, o pai.

Figura presente enquanto ser encarnado para essa função deve – se pretendemos manter o rigor de delimitar nosso interesse em situar a operação que se dá no sujeito psicótico – ser ultrapassado enquanto vicissitude de uma função.
Não pretendemos, ao situar em destaque secundário os objetos pai e mãe, menosprezar sua presença.

Mas neste artigo nos interessa, desde o plano imaginário e simbólico, pensar sobre como se opera na mãe a vinda e cons- tituição do que posteriormente entendemos por um sujeito psicótico esquizofrênico.
Para tanto, a fun- ção e presença do pai deve já estar presentificada na mãe desde o início.

O início de uma gravidez deve ser acompanha- do de uma série de enunciações que despertam o mais arcaico e encoberto sistema de segurança sus- tentado sobre o recalque originário, enunciações estas que, ou bem sustentam a relação dual, que deverá se conduzir a tripessoalidade processo dinâmico que segue a conduta de autonomização do filho em relação a seus pais ou podem fazer dessa relação um tipo vincular específico, que contribui- rá para a presença posterior de modos relacionais psicogênicos adoentados.

Desde a gestação, a mãe cria vínculos com a criança, criando, a partir de então, fantasias e apreensões satisfazendo suas pulsões de vida

É assim que escutamos as narrativas maternas sobre o bebê, as fantasias, desejos, apreensões e temores.
Discurso integrante de uma conjuntura simbólico- imaginária que ordena a realidade deste duplo-vínculo, contando com esse laço para satisfação de suas pulsões sobre a vida.

Laço renovado entre o passado familiar e ancestral e o futuro, em sua promessa de garantia de continuidade histórica.
“A função materna como fonte do humano, ser erótico com poder, supõe não só a ligação a objetos, mas a incorporação desses objetos no movimento próprio do narcisismo” (BERLINCK, 2000, p. 102).

Mãe e filho devem renunciar ao investimento narcísico fundador da inseparável unidade mãe-filho. Por trás da figura materna há uma mulher que não perdeu seu narcisismo, pelo contrário, para ela é absolutamente necessário que nem tudo esteja investido em seu filho e que ela guarde para si uma parte.

Nesta perspectiva, a função materna ocorre na medida em que a mãe oferece como “outro” aquele que possui todos os significantes, pelo menos no início – ao mesmo tempo em que mama, a criança é falada, é tocada (OLIVEIRA,; CARVALHO, 1994).

Aos poucos, o corpo “despedaçado” da criança, de zonas erógenas atuando separadamente, vai sendo unificado, construído imaginariamente em relação à mãe.
Nossa pesquisa segue direcionamento diverso e enigmático ante as narrativas de mães de sujeitos gravemente afetados por seus sintomas psicóticos e que necessitam, em algum momento, de internação em ambiente psiquiátrico.

Se não fosse por essa razão (da internação) acreditamos que dificilmente teríamos chance de presenciar certos depoimentos sobre a história de mães e seus filhos, visto que elas não se propõem, de modo mais freqüente e inserido em seus cotidianos, entrar em conflitos em que pese conseqüências que demandem a exigência de um auxílio psicológico.

“Na psicose, a díade mãe-filho, fechada enquanto célula narcísica, não permite a entrada da lei e a criança continua com uma ligação de dependência, sendo completada e completante”. (OLIVEIRA,; CARVALHO, 1994, p. 32).

Ao falar do filho, a mãe traz suas fantasias para o registro simbólico desta constelação, não permitindo, assim, ele emergir como sujeito do seu próprio desejo.
De acordo com Brauer (1994), a partir do estádio do espelho, na psicose, forma-se um Eu, em que o imaginário se restringe à imagem e semelhança daquilo que é o desejo da mãe para o filho.
O espelho materno que ordenaria a passagem de um corpo vivido em pedaços em direção a uma estabilidade, na psicose, vai em direção à constituição de um corpo fragmentado.

Relato de caso

Ao iniciar o atendimento de Nelson, senti enorme dificuldade em ter alguma compreensão do que me dizia.
Sua narrativa era, por demais, confusa. Nas sessões falava pouco, eu insistia para saber o porquê havia sido internado; onde morava; como era sua vida.

Sempre começava me dizendo que não tinha o que falar e que ficar calado era melhor, pois sua mãe era homófila e telepática. Pergunto o que significa isso, e ele responde “ela sabe o que eu penso e me recrimina” e às vezes age assim “aos gritos, às vezes batendo com a vassoura” temporalmente essa recriminação ocorre antes mesmo que ele fizesse o que gostaria.
Observo uma dificuldade em conseguir se assenhorear de seus atos, o que fica difícil é perceber a extensão dessa condição, ao menos em princípio.

Muitas vezes, Nelson me diz como deveria se portar: “quieto, comportado”, sem demonstrar algo que fale de seu desejo. É assim que imagina e orienta seu narcisismo, observando atentamente onde a mãe não o quer, pois afinal, é aí onde se enxerga.

NA PSICOSE, A DÍADE MÃE-FILHO NARCÍSICA PERMITE A RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA ENTRE A COMPLETADA E COMPLETANTE

“Na mãe idealizante, é o filho que receberá a carga esmagadora de assemelhar-se ao filho modelo.
O filho inteligente, o filho bem-comportado, que não fala, que não existe […] ou seja, o futuro psicótico.” (MANNONI, 1992, p. 202)

No caso, o lugar a ser ocupado idealmente como “filho modelo” é o pior possível para a constelação narcísica.
Ter de enxergar-se onde não se quer ou se espera na visão constituinte do outro de modo ideal não poderia gerar nada além de uma dessubjetivização radical.

Imagens: shutterstock
Mãe e filho devem renunciar ao investimento narcísico fundador da inseparável unidade mãe-filho

Em outras sessões, Nelson relata que algumas vezes foi internado pela curiosidade em conhecer um hospital psiquiátrico.

E depois de ter conhecido, por que voltar? “Depois que conheci o hospital, quebrei alguns vidros em casa e por isso minha mãe me internou, mas agora não quebro mais, fui curado “comprimidalmente” e “injecionalmente”.
O hospital parece poder cumprir lugar como um porto seguro, ou no mínimo um ambiente razoavelmente protegido onde poderá encontrar abrigo após atos incontroláveis.

Conta-me de sua capacidade de compreender a mãe telepaticamente, situação em que a mesma transmite informações a ele pelo olhar, e ele consegue decifrar estas informações.

Por isso, ao conseguir entender suas intenções, “não faço mais as coisas que ela não gosta”, “isso me tornou naturalmente saudável, como eu devo ser”.

Pergunto sobre o que é ser alguém que não briga, ser calmo e não reclamar, afinal, o que significa ser naturalmente saudável? E Nelson me responde que é alguém assim “mesmo”, então completo: “é por ter medo da sua mãe”…? – “Eu não a contrario mais”.

Penso no naturalmente saudável como um vegetal, quase um morto vivo, que não contraria ninguém, sem possibilidade de se situar, que não toma uma posição. Pergunto sobre a morte de seu pai e Nelson me diz que “também foi naturalmente saudável, ou seja, calminha, sem dor nem grito”, (conta que o pai morreu de enfarto fulminante).

Fala de sua relação com os médicos, a quem deve obedecer. O que o médico manda ele deve fazer, “senão ele pode ficar nervoso e brigar comigo”. Diz que mesmo quando sabe que o remédio não está funcionando muito bem, não fala nada, pois os médicos sabem e devem ser respeitados. Trabalhou numa marcenaria, mas sua preferência é por “bicos”, pois assim ao terminar o serviço pode ser livre.

“Uma vez, meu chefe ofereceu um serviço fixo, depois disso não apareci mais lá”. Diz ter medo de ficar preso, sua liberdade tem de estar garantida. Nelson procura fugir do aprisionamento que sente em relação à sua mãe, que por vezes é tão invasiva e o sufoca tanto “que preciso sair correndo”, o que, efetivamente, não lhe garante nada, já que sua mãe se encontra psicoticamente entranhada em suas vísceras.

Conflito sintomático

Podemos realmente atribuir à ferida narcísica, vivida de modo tão contundente, o afeto de um luto?
Sabemos que para Freud, o luto era considerado um afeto normal, uma reação à perda de um ser amado ou equivalente. Miguelez nos conduz sobre esse tema a seguinte condição:

“Caracteriza- se por um estado profundamente doloroso que faz o sujeito em luto perder seu interesse pelo mundo exterior, ver-se diminuído em suas capacidades e aberto quase que com exclusividade às lembranças que o ligam ao objeto perdido. A atenção concentrada na perda é produto de um esforço – um trabalho, disse Freud -, a partir do qual a pessoa em luto procura pouco a pouco retirar a libido de todas as representações que a ligam ao objeto perdido”. (MIGUELEZ, 2007,p. 20)

Ora, se estamos no campo de uma mãe que vivenciaria o nascimento de seu filho como um luto, tratando assim de sintomatizar em seu corpo essa perda, será que efetivamente não teríamos alguém que se desligaria desse infans e poderia, a partir daí, esquecer, abandonar, rejeitar de tal modo esse objeto (situação que sempre causa comoção e perplexidade cada vez que noticiada) e fazer seu trabalho de luto? Pensamos que esse pode vir a ser o destino de uma série de crianças que se verão abandonadas por suas mães e destinadas, quando a sorte assim desejar, à adoção.

Como nos lembra Miguelez (2007) retomando Freud, “o narcisismo está ao lado da melancolia, e não do luto”. (p.21) E logo em seguida completa: “Na melancolia (…) o narcisismo está presente como identificação narcisista, produto, por sua vez, de uma anterior escolha narcisista de objeto. O objeto perdido não pode ser abandonado, e no lugar do abandono surge uma identificação narcisista com ele.

A sombra do objeto caiu assim sobre o Eu, célebre frase que por muito tempo orientou a leitura psicanalítica da melancolia: o ataque que o melancólico efetua em si mesmo é um ataque ao objeto com o qual está identificado. Ou, em uma versão posterior: o Supereu ataca o Eu”. (p.21) Impressionante deslocamento do conflito sintomático. Para não cair nas garras de um supereu tirânico e despedaçador, é o filho que terá de arcar com esse fardo. Temos aí uma possível explicação sobre os afetos odiosos que muitas vezes sentimos ao lidar com essas mães, afetos que, se contratransferencialmente atuados pelo terapeuta, podem impedir que a escuta e o processo clínico se constituam.

imagens: shutterstock

Perversão e Recalque

Buscando autores que possam referenciar nossas indagações sobre a vinda de uma criança e o conseqüente desencadeamento nas defesas maternas, encontramos referência a isso em Piera Aulagnier:

“É, finalmente, possível e provável que a criança seja, neste caso, ao mesmo tempo, o fator desencadeador de uma brusca descompensação ao nível das defesas (o que explicaria porque é justamente nas relações com seus filhos que se concretiza o que existe nela da ordem de uma perversão ao nível da lei) e, de outro lado, o que lhe permite preencher esta mesma brecha, fazendo do corpo da criança a muralha que acolhe e fixa todo o aparecimento de um recalcado mal-represado”. (AULAGNIER, 1991, p.59)

Duas questões nos indagam a partir dessa proposição: por que se enuncia que o estatuto de uma perversão estaria em jogo?
Sem dúvida imaginamos que essa mãe possa relacionar- se com seu filho como se ele ali não estivesse, mas isso estaria vinculado a alguma ordem de prazer?
Nesse sentido estaríamos diante de mães perversas utilizando defensivamente seu sintoma?
E por que deveríamos entender enquanto perversa essa posição?
Utilizar defensivamente um sintoma perverso constelado desse modo equivaleria, não a busca por um prazer por meio de seu ato, mas sim uma desmesurada e característica proteção contra a invasão do que seria vivido como um radical e insuportável enlaçamento com outro corpo.

A expressiva sobrecarga narcísica da mãe sobre seu filho se deve à perturbação melancólica presente neste laço, desembaraçando seu corpo de um processo que fatalmente não suportaria: um processo de luto (veja quadro Conflito sintomático). Isso se evidenciará no desenrolar de sua re- lação com seu filho, e o mesmo trará suas marcas onde quer que se proponha a atuar desejantemente.

Sabemos que uma maneira de calar o desejo da criança é não permitir que ele surja, por isso Nelson não abandona a demanda que o permite reconhecer-se como objeto parcial, pois é por meio da mãe que tem acesso ao gozo, e com isso se mantém inoperante para o prazer. Só como objeto parcial se encontra na dialética materna, a possui e é possuído por ela.

Segundo Lacan (1985), a psicose se caracterizaria como uma fixação da imago do sujeito que vem a impedir o prosseguimento do desenvolvimento subjetivo. Dessa forma, as identificações aprisionarão o sujeito em uma dinâmica dual, afastando-o da direção de uma subjetivação mais autônoma gerando uma espécie de loucura a dois, onde o modo psicótico de um, geralmente da mãe, vem provocar a psicotização do outro.

A imposição do ideal de “filho modelo” gera uma dessubjetivização radical, em que este filho receberá a carga esmagadora da mãe idealizante

Existem manuais que ensinam a tratar os bebês, mas nenhum explica exatamente o que é ser mãe, uma alternativa é seguir um modelo. No caso de Nelson, não sabemos ao certo que modelo essa mãe recebeu, mas podemos considerar que, a partir do modelo investido, organiza sua relação de modo tal que, numa tentativa de não se desorganizar psiquicamente, e ainda mais, como defesa ante a possibilidade de ela mesma vir a psico- tizar, gera, em sua relação com o filho, uma loucura a dois, sendo Nelson o depositário infeliz da sobrecarga doentia.

A erogenização investida em seu filho nos remete a pensar so- bre o impossível recalque do desejo de morte e o exagero nos atos desta mãe que nos con- duz a pensar que as defesas de Nelson não encontraram outro modo de se alienar de tais atos senão alienando em si o desejo. A mãe do psicótico carece de “ferra- mentas” afetivas para proteger seu filho de sua historicidade inconsciente que assola brutalmente esta relação, a não ser dando o máximo de si.
O problema é que o máximo sempre conduzirá ao mínimo no outro extremo da linha.

◆ No livro de Oscar M. Miguelez, Narcisismos, o autor destaca a especificidade dos contextos nos quais esse conceito se articula na obra de Freud: psicoses, sexuação, pensa- mento, alteridade, luto, castração, etc.
Essa visão plural de Narcisismo pretende afastar-se de uma compreensão freqüentemente banalizada de narcisismo. Luto, religião, transferência e a questão do mal são alguns dos temas que se oferecem, nessa perspectiva, para a reflexão teórico-clínica
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