TRATAMENTO: VALE TUDO PARA ABANDONAR O VÍCIO

Terapia, grupos de anônimos, medicamentos e ajuda de Deus; especialistas dizem que melhor saída é aquela que dá certo

TATIANA LIMA
MARCELO PINHO

DA EQUIPE DE TRAINEES

Não há um caminho único para quem quer se livrar da dependência. A ajuda mútua dos grupos de anônimos, os divãs de psicoterapeutas, os remédios recomendados por psiquiatras e até os bancos das igrejas podem ajudar uma pessoa a se recuperar do vício.

Para Jair Mari, professor de psiquiatria da Unifesp, que atende dependentes químicos, a depressão muitas vezes leva algumas pessoas a buscar as drogas. “Para esses casos, o auxílio de remédios e a psicoterapia podem solucionar o problema”, explica.

Antidepressivos podem, ainda, funcionar como um substituto para a cocaína. Alguns deles contêm bupropiona, substância que, segundo Mari, produz efeitos semelhantes aos da cocaína.

No entanto, o uso de remédios não é unanimidade entre médicos. O psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor da Uniad (Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas) da Unifesp, afirma que, “se esse uso fosse simples, o problema da droga já estaria resolvido”.

Uma nova alternativa para o tratamento da dependência de cocaína poderá ser o uso de vacinas. Uma companhia inglesa anunciou nesta semana o sucesso de testes, em humanos, de uma vacina que evitaria a ação da cocaína no cérebro. Sua utilização, no entanto, ainda vai depender de novas experiências.

Anônimos

Enquanto a vacina não vem, os grupos de ajuda mútua são uma alternativa. Formado em 1935 nos Estados Unidos, os Alcoólicos Anônimos, segundo a própria entidade, têm cerca de 2 milhões de membros no mundo. Só na cidade de São Paulo, existem mais de 200 grupos de ajuda. Além dos alcoólicos, há grupos para narcóticos, comedores compulsivos, dependentes de sexo, entre outros.

Neles as pessoas trocam experiências e encontram apoio de outras com os mesmos problemas. “O grupo funciona como uma segunda família”, diz o sociólogo Leonardo Mota, autor de um livro recém-publicado sobre o AA.

As técnicas dos anônimos, no entanto, são alvo de críticas. O psicanalista e psiquiatra Maurício Gadben, que defendeu tese de doutorado sobre dependentes na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), critica os anônimos por só atacarem os sintomas da dependência.

O psiquiatra Jairo Werner, coordenador do grupo de estudos sobre tratamento de alcoolismo da UFF (Universidade Federal Fluminense), diz que falta aos anônimos diagnóstico médico. “Muitos dos que procuram esses grupos precisam de auxílio especializado”, diz.

Ainda assim, profissionais de saúde não questionam a validade dos anônimos. Ao contrário, recomendam aos seus pacientes que os freqüentem. O psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, presidente do Grea, é um deles.

A psicóloga Maria Paula Oliveira, uma das fundadoras do Ambulatório do Jogo Patológico do Proad da Unifesp, diz que os anônimos tiram dos dependentes o sentimento de onipotência.

Segundo ela, os dependentes costumam se considerar quase deuses. Nos grupos, eles precisam admitir que são incapazes de controlar seus impulsos e que um “poder superior” os orienta.

Oliveira diz que esse “poder superior” não é, necessariamente, Deus. Leonardo Mota concorda com a psicóloga. Para ele, os integrantes de grupos anônimos podem entendê-lo como quiserem.

Religião

Outro caminho para abandonar a dependência é a religião. Muitas delas oferecem tratamentos para diversos tipos de vício. A Igreja Católica, por exemplo, criou, em 1998, a Pastoral da Sobriedade. A entidade segue o modelo dos 12 passos (veja quadro ao lado).

O professor de sociologia da USP Flávio Pierucci afirma que as religiões usam o tratamento para conquistar fiéis. “É o mesmo que converter presos em cadeias.”

Coordenador da Pastoral da Sobriedade em São Paulo, d. Irineu Danelon admite a catequese na pastoral e é taxativo: “Não há recuperação sem evangelização”.

Participante das reuniões da pastoral desde a fundação, Valmir, ex-dependente de cocaína, diz que só conseguiu abandonar as drogas com a religião. “Freqüentei reuniões do Narcóticos Anônimos, mas vi que ficaria dependente delas. Só com Deus consegui ser independente.”

Algumas pessoas trocam uma compulsão por outra, tornando-se fanáticas por religião, segundo o psiquiatra Edmundo Maia, diretor de uma clínica que atende usuários de drogas e outros compulsivos.

D. Irineu Danelon admite que algumas pessoas exageram por falar demais sobre religião. “As pessoas devem agradar a Deus pelo estilo de vida que levam e não apenas pela palavra.”

Divã

Enquanto nos anônimos e nas igrejas os dependentes contam experiências sem ser questionados, nos tratamentos psicoterápicos, eles falam de assuntos que nem sempre abordariam sem estímulo. “Nas terapias de grupo, todo mundo conversa, se questiona. O terapeuta sempre aponta questões”, afirma a psicóloga Maria Paula Oliveira.

Há duas diferentes abordagens para o tratamento psicoterápico, segundo a ONU: a behaviorista e a psicodinâmica. Na primeira, o terapeuta acredita que o comportamento compulsivo decorre de falha no aprendizado. O paciente precisa aprender a se comportar de outra forma.

Werner, da UFF, compara o aprendizado ao de línguas. “O dependente precisa aprender outra linguagem que não a das drogas.”

A psicodinâmica aborda a questão do vício como reflexo de conflitos internos surgidos na infância e que precisam de solução.

Eliseu Labigalini, psiquiatra do Proad, afirma que a terapia é longa e, às vezes, difícil, por obrigar o paciente a se questionar.

Internações

Quando o dependente já tentou parar de várias formas e não conseguiu, a saída pode ser a internação, afirma José Galduróz, psiquiatra do Cebrid, da Unifesp.

Ela, no entanto, não significa o fundo do poço. Segundo José Antônio Zago, psicólogo do Instituto Bairral (clínica psiquiátrica que tem 56 leitos destinados a dependentes), boa parte dos internos tem emprego e apoio da família.

O jornalista Carlos, por exemplo, ainda trabalhava quando foi internado pela primeira vez em 2001. Só em 2004, por causa de uma recaída, perdeu o emprego.

As clínicas combinam, em geral, o uso de remédios, com psicoterapia e terapia ocupacional. Algumas usam os 12 passos dos anônimos e o auxílio da religião.

De todos os tratamentos, dizem os especialistas ouvidos, o melhor é aquele ao qual o dependente se adapta, que pode ser a simples vontade de parar ou todos juntos.



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