”Hoje sou uma pessoa resolvida”

Casagrande

Ex-jogador de futebol e comentarista esportivo recebe homenagem de torcedores e fala sobre seu tratamento de dependência química

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Qua, 01/04/2009 – 13:53

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 - Foto: Thiago Bernardes - 0

Foto: Thiago Bernardes

Casagrande recebe o apoio de Biro Biro, seu ex-companheiro de Corinthians

Por Jacyara Azevedo

O ex-jogador e comentarista esportivo Casagrande, 45 anos, é conhecido pela sua franqueza. Agora, ele está usando essa característica para largar a dependência das drogas e reconstruir sua vida. ”Tenho problema com droga e sou uma pessoa doente. Não preciso esconder, tenho de viver com isso. O que eu posso fazer? Trato isso de maneira normal, não posso ficar me condenando”, desabafa.

Há seis meses, Walter Casagrande Jr. recebeu alta da Clínica Greenwood, em Itapecerica da Serra (SP). Na clínica, especializada no tratamento e na reabilitação de dependentes químicos, ele ficou internado durante um ano. Foi o filho mais velho, Victor Hugo, 23, que o convenceu a receber ajuda. O ex-jogador também é pai de Ugo Leonardo, 19, e Symon, 16, todos de seu casamento de 21 anos com Mônica Feliciano, de quem está separado há três.

O ex-jogador tem evitado sair de casa, mas, na quinta-feira (26), teve de atender um pedido: foi receber uma homenagem do movimento de torcedores do Corinthians Loucos por Ti – Projeto Centenário. Foi o clube paulista que o revelou para o futebol e ali ele viveu grandes momentos de sua carreira. Casagrande chegou ao Estádio Museu Preto & Branco, um bar dedicado ao clube, no bairro do Tatuapé, às 21h20. Foi recebido por torcedores entoando o coro: ”Ôô, ôô, o Casagrande voltou”. Durante a cerimônia, ao lado de ex-companheiros de clube, como Biro Biro, Wladimir e Ataliba, o comentarista esportivo (afastado da Rede Globo desde 2007) ficou muito emocionado. ”Estou bastante feliz. Passei por um problema muito sério e agradeço pelo pensamento positivo que recebi de vocês no momento mais difícil e importante da minha vida”, declarou. A torcida retribuiu cantando: ”Doutor, eu não me engano, o Casagrande é corintiano”. A seguir, o ex-atacante da seleção brasileira fala abertamente sobre seu processo de recuperação, da sua rotina e da volta à TV.

Como está sua rotina?
Faço terapia com psicólogo às segundas, quartas e sextas, e com psiquiatra às terças e quintas (risos). Dou umas caminhadas no (parque) Villa-Lobos, vou ao cinema, ao teatro, às vezes faço um happy hour com alguns amigos. Mas o meu giro de relacionamentos está bem curto. Fiquei um ano internado e agora estou retomando aos poucos e vendo como as pessoas estão me recebendo. Mesmo que eu queira, não posso mais manter amizade com quem usa droga ou tem uma vida desregrada. Estou evitando. Infelizmente, estou peneirando – é até uma palavra meio pesada.

Quando você volta à televisão?
Já tive uma reunião com a diretoria da Globo e eles pediram o laudo da minha psiquiatra. Ela mandou e a equipe do Rio precisa me enviar um documento para assinar, que ainda não chegou. É uma questão interna, burocrática mesmo. Mas está para estourar a qualquer hora. Eu começo no SportTV (canal fechado), no programa do Cléber Machado, depois no do Galvão Bueno, e transmitindo alguns jogos. Mais para frente volto para a Globo. Ainda não há uma data definida. Será uma readaptação.

Você sente falta do trabalho?
Sim. Ele não é parte da minha recuperação, é parte da minha vida. Todo mundo trabalha, eu também (risos). Meu processo de recuperação foi feito e já estou bem melhor dentro da sociedade e do mundo. Estou mais à vontade, mas não totalmente ainda. Só está faltando trabalhar para eu seguir meu caminho, minha vida normal. Hoje é a terceira vez que saio à noite depois da internação. Tenho tido vários cuidados com meu modo de viver e estou esperando voltar ao trabalho para me enturmar de novo.

Você fala com tranquilidade sobre seu tratamento…
Hoje é tranquilo porque sou uma pessoa resolvida. Quando fui internado, achava que não era doente e não aceitava o meu problema. Eu pensava que poderia parar de usar droga a qualquer momento. O tratamento de um ano me fez descobrir coisas dentro de mim que foram ótimas, mas assustadoras também. Então, agora trato o meu problema muito tranquilamente: tenho problema com drogas e sou uma pessoa doente. Não preciso esconder isso. Por enquanto não senti preconceito nenhum. Encontro pessoas na rua e elas me cumprimentam, dão força, carinho. Mas o dependente químico é a segunda classe que mais sofre preconceito, a primeira são os homossexuais… O que posso fazer? Trato isso de maneira normal, não posso ficar me condenando. Eu não tenho culpa de nada. Não tenho culpa de ser dependente químico.

Como buscou força durante sua recuperação?
Inicialmente você começa a fazer pelos outros. Eu pensava: ”Ah, vou fazer pelos meus filhos e pelos meus pais porque eles não merecem”. Quando passei a entender e a aceitar o meu problema, comecei a fazer por mim. A referência era eu mesmo, precisava me recuperar por mim. Tinha de ter uma vida boa, a doença era minha, não dos outros. O dependente químico costuma transferir a responsabilidade para os outros. Uma hora olhei e falei: ”Eu sou doente, tenho de me tratar e acabou”.

Seguiu algum exemplo?
Sou muito ligado à música e aos anos 60 e 70. Minha cabeça era muito presa ao lema sexo, drogas e rock and roll. Antes de ser internado meus ídolos eram aqueles que morreram de overdose. Eu tinha um conceito invertido do que era viver e trabalhei isso no meu tratamento. Hoje, meus ídolos são aqueles que sobreviveram como o (guitarrista) Eric Clapton. No tempo de internação coloquei as coisas no devido lugar. Não nego a minha idolatria pelos que morreram, mas não quero mais ser como eles. Quero ser como os que sobreviveram.

Qual o significado desta homenagem da torcida do Corinthians?
Eu fico muito feliz. Primeiro porque estou um pouco isolado e não ficava no meio de bastante gente há um bom tempo. Sair para receber uma homenagem de uma torcida do clube onde comecei, aos 6 anos de idade, é legal. Quando era garoto, meu sonho era jogar no Corinthians e eles não se esqueceram de mim. Não sei se é coincidência ou não, mas esta homenagem veio em um momento gostoso e importante. Passei por um problema seríssimo e, de repente, sou acolhido de novo pela torcida do Corinthians. Aos poucos, você vai voltando para o lugar que merece. Não tem como apagar o que fiz e o que fui. O que aconteceu comigo foi uma queda, talvez uma mancha. Mas estou voltando gradualmente para a primeira divisão da vida.

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